Biologia, Ecologia, Efeitos Antropológicos, Extinção

O Rinoceronte-branco-do-norte está extinto. O que isso muda na sua vida?

No dia 19 de março de 2018 morreu Sudán, o último rinoceronte-branco-do-norte (Ceratotherium simum cottoni) macho do mundoEsse animal nasceu e foi capturado no  Sudão do Sul para fins de conservação (na época existiam 700 desses rinocerontes no mundo) e passou os primeiros 34 anos de sua vida no zoológico Dvůr Králové, na República Tcheca. Com o passar dos anos, o número dessa espécie na natureza caiu drasticamente e, em 1980, a população desses animais não passava dos 20 indivíduos. Sudán teve três filhas ao longo de sua vida, sendo que uma morreu logo após o parto, e, após o ano 2000,  nenhum novo filhote nasceu no mundo.

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Em 2009, Sudán foi levado de volta para a África, juntamente com as três últimas fêmeas de sua espécie, mas novas tentativas de reprodução não obtiveram sucesso, nem mesmo por inseminação artificial. O penúltimo macho do mundo morreu no Zoológico de São Francisco em 2014, no mesmo ano em que uma das três fêmeas também veio a óbito, deixando no mundo apenas Sudán, sua filha Najin e sua neta Fatu. Esses animais eram vigiados 24 horas por dia por guardas armados, cães de guarda e drones para impedir a ação de caçadores, uma vez que os chifres desses animais podem valer até 90 dólares por grama no mercado clandestino  – quase o dobro do preço do ouro.

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Sudán foi eutanasiado no dia 19 de março, devido a complicações em sua saúde, após meses em tratamento, sem sucesso. Acredita-se que ele já não era mais fértil, mas sua morte representa a extinção da esperança de salvar essa espécie. Mas afinal, salvar espécies em extinção é nossa responsabilidade? E ainda, o que ganhamos com isso?

Primeiramente, devemos entender um fato chocante para muitos. A extinção é algo natural. O planeta já passou por cinco grandes extinções em massa, ou seja, períodos em que, em poucos milhões de anos, mais de 70% das espécies do planeta foram extintas devido a mudanças climáticas bruscas ou grandes desastres naturais globais. A mais famosa delas, ocorrida 66 milhões de anos atrás devido à queda de um asteroide, matou mais de 75% das espécies do planeta, incluindo todos os dinossauros não-avianos, répteis voadores e mosassauros. Somente para se ter uma ideia, a maior extinção em massa ocorrida no final do período Permiano, 252 milhões de anos atrás, quase varreu a vida do planeta, eliminando entre 90% e 96% das espécies. Entretanto, após todos esses cataclismas, os animais e plantas sobreviventes espalharam-se pela Terra e se diversificaram em milhões de novas espécies. – “Life finds a way“.

 

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Representação do meteoro que colidiu com a Terra e desencadeou uma série de eventos causou a extinção dos dinossauros não-avianos, cerca de 66 milhões de anos atrás. Foto de Science Photo Library

 

Um outro processo de extinção, que sempre ocorre no mundo, é a chamada “extinção de fundo” (no original, “background extinction“). A extinção de fundo corresponde à quantidade de gêneros extintos no mundo por ano em condições ideais. Não entrarei em detalhes acerca da forma como isso é calculado, mas a taxa normal de extinção no nosso planeta gira em torno de uma e cinco espécies por ano. Atualmente, a taxa de extinção de fundo está entre 1000 e 10000 vezes os valores normais, com dezenas de espécies desaparecendo de nosso planeta todos os dias. Sapos, cobras, orangotangos, rinocerontes, abelhas, corais e morcegos estão sumindo. E o pior de tudo: a culpa é nossa.

 

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Branqueamento dos recifes de corais. Foto da direita por Gary Bell / Foto da esquerda por  Roger Grace

 

Raramente paramos para pensar que a maioria das espécies extintas anualmente são desconhecidas. Então, o que muda realmente com a extinção? Se tantas somem todo ano, por que ainda não sentimos esse impacto? Uma espécie que desaparece no planeta pode não ter nenhum impacto direto para nós. Entretanto, isso também pode gerar redução da produção de frutas e grãos, pragas agrícolas, epidemias urbanas, crises econômicas, desequilíbrios ecológicos generalizados e perdas irreparáveis na medicina. Para entender esses processos, vamos a um exemplo prático:

Atualmente, cerca de 40% das espécies de anfíbios do mundo estão em risco de extinção. Isso se deve à redução de seu habitat, poluição das águas, tráfico internacional de animais e, sobretudo, a uma doença fúngica. Com a introdução de uma espécie africana de rã na América do Sul , na década de 1970, as populações de anfíbios de diversas regiões das Américas entraram em colapso. Essas rãs estavam infectadas com um fungo parasítico denominado Batrachochytrium dendrobatidis. Por terem convivido com esse parasita por milhões de anos, essas rãs não eram afetadas por ele mas, ao infectar anuros locais, os efeitos foram devastadores. Essa doença, denominada quitridiomicose, causa convulsões e falhas respiratórias nos animais e possui 100% de mortalidade em algumas regiões.  Atualmente, a doença pode ser encontrada em todos os continentes, e está se espalhando cada vez mais rápido no meio natural.

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Países afetados pela quitridiomicose. Imagem retirada do site Amphibia Web

 

Caso a redução do número de anfíbios do planeta persista, a população de insetos pode subir drasticamente, inclusive no meio urbano. Pragas agrícolas como gafanhotos e pulgões podem varrer plantações inteiras em questões de horas, o que pode significar fome para milhares de famílias por todo o mundo. Uma menor disponibilidade de alimento para nós também significaria um aumento significativo em seus preços, prejudicando a economia de diversos países, sobretudo aqueles que têm a agricultura como sua principal fonte de renda, como Madagascar.

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Praga de gafanhotos em 2015, na Argentina. Foto de BBC/CRA

 

O crescimento da população de insetos pode contribuir para o surgimento de novas epidemias de doenças vetoriais, como Dengue, Zika e Malária. O recente surto de Febre Amarela, por exemplo, pode estar relacionado com a degradação de ambientes selvagens, fragmentação do habitat das presas naturais dos mosquitos (que buscam o ser humano como alimento alternativo) e até mesmo a redução do número de  predadores, sobretudo sapos e pererecas.

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A Pithecopus ayeaye é um animal localmente comum, mas é considerada criticamente ameaçada pela IUCN por viver em uma área menor que 100 km² em uma região de interesse econômico, sobretudo das mineradoras.
Foto por: Pedro Henrique Tunes

 

Os ecossistemas são redes interconectadas nos quais as espécies evoluem em conjunto por milhões de anos e, assim, mantém o equilíbrio do meio. A biota de uma área é interdependente, o que significa que, ao excluir um animal específico de uma teia alimentar, todo o sistema pode entrar em colapso. Milhares de espécies dependem dos anfíbios para sua alimentação ou controle populacional e retirar uma única espécie pode extinguir um ecossistema inteiro.

 

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Ao contrário da maior parte das representações que vemos, teias alimentares são muito mais complexas do que imaginamos. – Changes to marine trophic networks caused by fishing (NAVIA, A. F., et al.)

 

Por fim, a extinção de espécies, sobretudo das ainda desconhecidas, gera perdas irreparáveis na saúde da população. Anfíbios, principalmente os sapos, são conhecidos por possuírem uma enorme variedade de venenos e toxinas em sua pele. Algumas dessas substâncias possuem  propriedades antibacterianas incríveis, enquanto outras estão sendo atualmente testadas para o combate de doenças como a AIDS e a doença de Chagas. Inúmeras substâncias isoladas de fungos, plantas e animais possuem propriedades farmacológicas importantes, como é o caso da jararaca (Bothrops jararaca), cujo veneno possui substâncias anti-coagulantes e cardio-estimulantes, que reduzem a pressão arterial. O Captopril (Capril), é um remédio da classe IECA (Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina) criado a partir do veneno dessa serpente e, atualmente, é o anti-hipertensivo mais utilizado em todo o mundo.

 

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Filhote de Bothrops jararaca.                                                        Foto de: Fabio Olmos

 

Em resumo, a perda da biodiversidade representa inúmeras perdas para os seres humanos. Somos os culpados, de forma direta ou indireta, pela maior parte das extinções atuais do planeta e, por isso, é nosso dever proteger as espécies que prejudicamos. Milhares de espécies se extinguem todo ano no mundo e, na maior parte das vezes, esses danos, por menores que sejam para nós, são irreparáveis. Sendo assim, encerro o texto com uma reflexão:

Uma pesquisa de 2010 revelou que as extinções podem gerar um prejuízo de 18% da economia atual até 2050. Além disso, a extinção de outras espécies pode contribuir para a nossa própria, a longo prazo. Porém, quanto realmente vale uma vida? A natureza é um tesouro inestimável, que estamos perdendo, dia após dia, por nossa própria culpa. O planeta não é nosso. Conhecemos cerca de  950.000 espécies, mas estima-se que dividimos o planeta com algo em torno de 7 a 10 milhões. Não seria egoísmo pensarmos apenas nos impactos que a extinção gera diretamente em nossa vida? Devemos nos preocupar, não só com nossa espécie, mas com todas as outras. Afinal, não seremos realmente humanos se nos faltar humanidade.

Cada um pensa em mudar a humanidademas ninguém pensa em mudar a si mesmo – Leon tolstoi

Nota do autor: Esse texto foi um dos mais difíceis que já escrevi até hoje. Foram 15 horas de trabalho, distribuídos em seis dias de pesquisa. São tantos exemplos possíveis e tantas histórias que eu poderia contar que fiquei assustado. A natureza está pedindo socorro, só nos resta começar a ouvir.

 

 

Referências:

Por que você deveria conhecer Sérgio Ferreira

Texto BBC  sobre espécies ameaçadas – http://www.bbc.com/earth/story/20150715-why-save-an-endangered-species

Texto BBC sobre impactos econômicos da Extinção

Texto New York Times sobre vida de Sudán – https://www.nytimes.com/2018/03/20/science/rhino-sudan-extinct.html

Artigo sobre extinção de fundo – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25159086

Artigo sobre teias alimentares e redes tróficas – https://www.researchgate.net/figure/Schematic-image-of-the-trophic-network-of-the-Gulf-of-Tortugas-based-on-TU-3-The_fig3_259183367

 

 

3 comentários em “O Rinoceronte-branco-do-norte está extinto. O que isso muda na sua vida?”

  1. É triste a extinção de animais que nunca prejudica o ser humano…. porém ao contrário, seres humanos que prejudicam as espécies….
    Assim como tbm está em extinção bons seres humanos…..

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  2. Texto muito explicativo e interessante. Parabens a sua pesquisa e as colocações sobre nosso futuro. Me deixou bastante preocupado. Aguardo em breve novos textos tão bons quanto. Me surprienda.
    Roberto Gonçalves Tunes
    Engenheiro Civil e seu tio.

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