Cotidiano, Ecologia, Efeitos Antropológicos, Extinção

Porque o KitKat pode estar matando os Orangotangos.

O chocolate é um dos doces mais populares do mundo, com um importante valor econômico, social, histórico, cultural e político. Embora pareça um produto simples, o chocolate possui uma história complexa e molda nossa sociedade de maneiras que nem imaginamos.

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Acredita-se que o cacaueiro (Theobroma cacao) começou a ser plantado há cerca de 3000 anos na América Central e, rapidamente, se espalhou pela região como uma importante cultura local. Cerca de mil anos depois, o Império Maia começou a utilizar sementes de cacau, pimenta e baunilha para produzir uma bebida amarga, denominada de xocoatl, que era utilizada pela etite local como um medicamento para combater o cansaço e também como afrodisíaco.

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Ilustração científica do cacau (Theobroma cacao) 

A expansão maia pela América levou o cacau para novas regiões do continente e, anos depois, suas sementes começaram a ser utilizadas como moeda de troca em diversos povos, sobretudo no Império Asteca, entre 1325 a 1521 D.C. Grande parte da expansão asteca dos séculos XV e XVI ocorreu para suprir a sua demanda por cacau, principalmente durante o reinado de Moctezuma II, entre 1502 e 1520. Nesse período, mais de  1.200 toneladas de sementes de cacau eram estocadas em Tenochtitlán (atual Cidade do México) e mais de 2000 taças de xocoatl eram consumidas diariamente pelos soldados locais.

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Pintura asteca representando o consumo do xocoatl e da troca de sementes de cacau durante um casamento

Após a descoberta do continente americano pelos europeus, em 1492, os espanhóis descobriram o consumo do cacau pelos povos nativos e, em 1526, levaram esse alimento para a Europa, que passou a ser consumido com cana de açúcar, canela e anis. O chocolate, como ficou conhecido, foi introduzido na Itália e França em 1606 e se espalhou pelo continente como uma bebida da aristocracia. No século XVII, a bebida começou a ser adicionada a diversos doces e diversas “casas de chocolate” foram abertas por toda Europa e, no século XVIII, na Ásia.

 

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Quadro mostrando o consumo de chocolate pela burguesia europeia Lady Pouring Chocolate – Jean-Étienne Liotard (1744)

Grandes quantidades de cacau começaram a ser exportadas das novas colônias europeias, especialmente do México, Equador, Venezuela e Brasil. A grande adaptabilidade do cacaueiro permitiu que grandes plantações fossem iniciadas em outras colônias, o que reduziu o preço do cacau e, consequentemente, do chocolate, que começou a ser consumido por todas as classes sociais. No século XIX, grandes fábricas de chocolate existiam em toda Europa e, com a invenção do chocolate em pó, em 1828, da barra de chocolate, em 1849, e do chocolate ao leite, em 1879, esse doce começou a ser exportado para todo o mundo.

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Entre os séculos XIV e XIX, a maior parte da produção de cacau do mundo ocorria na América Latina, com a utilização de mão de obra escrava. Com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, o uso dessa mão de obra deixou de existir na América, o que incentivou a indústria do chocolate a buscar novos locais para investir em plantações de cacau, como no sudeste asiático e na África subsaariana, onde a escravidão ainda persistia.

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Plantação de Cacau no Pará. Foto por Incaper

No século XX, o chocolate se tornou o doce mais consumido no mundo e, atualmente, o cacau é cultivado em cerca de 17 milhões de hectares e gera mais de 100 bilhões de dólares anualmente. Devido à sua grande demanda e a seu alto valor comercial, as grandes fábricas de chocolate do mundo, sobretudo após o início do século XXI, passaram a adotar medidas para aumentar a procura e reduzir o custo de seus produtos, o que gera impactos destrutivos na população e no meio ambiente.

Primeiramente, vale ressaltar que, com o fim da escravidão da América Latina, África e Ásia, a maior parte dos governos não ofereceu medidas de ascensão social e/ou apoio ao ex-escravos, o que gerou uma exclusão dessa parcela da população, principalmente de negros. Isso fez com que os ex-escravos permanecessem em extrema pobreza e, muitas vezes, aceitassem continuar vivendo em condições análogas à escravidão, o que ainda persiste em muitos lugares nos dias de hoje.

Atualmente, cerca de 70% da produção mundial de cacau vem da Costa do Marfim e de Gana e, de acordo com dados da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, cerca de 2,3 milhões de crianças são usadas como mão-de-obra escrava nas plantações de cacau nesses locais, o que é negligenciado pelos governos locais em troca de propina. Crianças entre 9 e 16 anos, de diversos países diferentes, são forçadas a trabalhar entre 80 a 100 horas por semana em troca de comida e em condições extremas. Ainda hoje, marcas como Hershey, Mars, Nestlé, ADM Cocoa e Godiva são frequentemente acusadas do uso do trabalho escravo infantil em suas plantações de cacau na África Ocidental. Essas marcas assinaram um acordo internacional que tinha como meta erradicar essa prática até 2005, mas o número de crianças que trabalham na indústria do cacau cresceu 51% entre 2009 e 2014, de acordo com a Universidade Tulane.

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Criança trabalhando em plantação ilegal de cacau, na Costa do Marfim

Para melhorar a textura e baratear a produção do chocolate, diversas empresas utilizam em sua composição o óleo de palma (conhecido popularmente no Brasil como azeite de dendê), uma substância avermelhada, muito utilizada na culinária brasileira e africana e em rituais religiosos, que confere um gosto mais neutro ao chocolate e uma cremosidade característica. O dendezeiro (Elaeis guineensis) é cultivado de forma artesanal há mais de 10000 anos na África e chegou no Brasil após o início do tráfico inter-atlântico de escravos. Ainda hoje, ele é cultivado no Nordeste e Norte do país para o uso interno, o que gera fonte de renda para as populações locais e auxilia na manutenção de ambientes florestais em regiões de interesse agrícola.

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Dendezeiro, palmeira utilizada para a extração do óleo de palma

Atualmente, o óleo de palma é o óleo vegetal mais consumido no planeta e sua grande demanda gerou um plantio crescente de dendezeiros pelo mundo, pressionado pela indústria alimentícia industrial. Anualmente, milhares de hectares de florestas tropicais são destruídos para dar lugar a essas palmeiras, sobretudo no sudeste asiático, que produz mais de 85% desse ingrediente. Na Indonésia, por exemplo, a maior concentração dessas plantações está nas ilhas de Sumatra e Bornéu, duas regiões com milhares de espécies endêmicas.

A indústria da palma é a principal ameaça para animais como o rinoceronte-de-sumatra (Dicerorhinus sumatrensis), o menor rinoceronte do mundo, com menos de 300 animais viventes no mundo. O tigre-de-sumatra, que vive na mesma região, está em uma situação igualmente assustadora, com algo em torno de 600 exemplares na natureza. As três espécies de orangotangos (gênero Pongo) viventes no mundo também estão igualmente ameaçadas. A destruição do habitat desses animais, movida principalmente pela indústria do chocolate, torna esse produto uma ameaça para a biodiversidade mundial e para a manutenção de diversos ecossistemas, sobretudo em regiões negligenciadas do globo.

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Portanto, devemos parar de comer chocolate? Podem ficar tranquilos, pois a resposta é não!

Existem diversas maneiras de garantir que o chocolate que consumimos diariamente seja socialmente e ecologicamente correto. Primeiramente, priorize marcas de chocolate artesanais e locais, que não utilizam cacau importado para a criação dos seus produtos. Caso opte por grandes empresas, procure sempre empresas nacionais, que não utilizam o trabalho escravo como mão-de-obra.

Em segundo lugar, escolha sempre produtos que não utilizem óleo de palma em sua composição. O azeite de dendê utilizado para fins culinários e religiosos não é uma ameaça para a biodiversidade mundial, mas o uso industrial desse ingrediente é um grande problema. Itens como cosméticos, massas, produtos de limpeza e doces que contenham qualquer um dos seguintes ingredientes devem ser evitados:

Óleo vegetal (Vegetable Oil), Gordura vegetal (Vegetable Fat), Palm Kernel, Palm Kernel Oil, Palm Fruit Oil, Palmate, Palmitato (Palmitate), Palmolein, Glicerol (Glyceryl), Stearate, Stearic Acid, Elaeis Guineensis, Palmitic Acid, Palm Stearine, Palmitoyl Oxostearamide, Palmitoyl Tetrapeptide-3, Sodium Laureth Sulfate, Sodium Lauryl Sulfate, Sodium Kernelate, Sodium Palm Kernelate, Sodium Lauryl Lactylate/Sulphate, Hyrated Palm Glycerides, Etyl Palmitate, Octyl Palmitate, Palmityl Alcohol

Diversas marcas possuem hoje o selo RSPO, que indica que o óleo de palma utilizado no produto vem de plantações sustentáveis, com é o caso da Ferrero, marca fabricante da Nutella. Produtos como o Kit Kat são extremamente ricos em óleo de palma, mas não possuem tal selo, o que indica a utilização de plantações ecologicamente incorretas.

Pequenas atitudes diárias podem fazer uma grande diferença. Ao sair de nossa zona de conforto e buscar produtos menos prejudiciais ao planeta, contribuímos para preservar não só o meio ambiente, como também populações do mundo todo. Continue comendo seu chocolate tranquilamente, mas esteja consciente de sua procedência.

 

 

 

Referências

Organização Food is Powet

World Wildlife Fundation

Organização Slave Free Chocolate

Site facts-about-chocolate.com

Organização Onegreenplanet

Wakker 1998, in Clay (2004) “World Agriculture & Environment

Site nutella.com

Site theuniplanet.com

Imagens retiradas do site da WWF

 

 

 

2 comentários em “Porque o KitKat pode estar matando os Orangotangos.”

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