Água, Clima, Gestão de Recursos Hídricos, Meteorologia

Rios Voadores e Tempestades de Areia

Muitos dizem que a Amazônia é o pulmão do mundo, mas essa informação pode não estar tão correta quanto você imagina. Porém, mesmo desmitificando algumas ideias, esse texto se propõe a mostrar a harmonia extraordinária que existe na natureza.

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Ciclo Hidrológico

Fazendo uma analogia com o corpo humano, a água é para a natureza como um sangue que leva nutrientes essenciais ao resto dos órgãos, trazendo de volta um fluido já utilizado para ser renovado. Na Amazônia ocorrem coisas muito semelhantes e é conveniente ressaltar o poder desses processos para a vida. A evapotranspiração na Amazônia é de extrema importância para o clima global, já que muitas das correntes de umidade começam ali.

À primeira vista, alguns fenômenos da natureza não nos parecem muito lógicos porque não conseguimos vê-los. É o caso dos Rios Voadores que, apesar de não conseguirmos vê-los ou tocá-los, eles estão lá. Não é mágica. É apenas a natureza cumprindo o seu trabalho. As árvores presentes na Amazônia transferem tanta água do solo para a atmosfera que esse evento é visto até mesmo do espaço. Há aproximadamente 600 bilhões de árvores na região, que utilizam a luz do sol para fazer tal transferência de forma singela e delicada. Uma só árvore de grande porte consegue jogar para a atmosfera 1000 litros de água por dia somente a partir de sua transpiração. Se fizermos o cálculo correto e somarmos toda a área da Amazônia multiplicado pela quantidade de água que é transmitida ao ar pela vegetação, o suor da floresta, chegaríamos ao número extraordinário de 20 bilhões de toneladas de água em um único dia.

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Os Rios Voadores são o fluxo concentrado de vapor d’água em uma determinada região, que realiza exatamente o mesmo papel de um rio convencional de transportar água de um lugar para outro, contribuindo no processo de fertilização hidrológica, ou seja, eles levam matéria prima para a formação de nuvens e de chuva.

COMO FUNCIONA? O vapor que vem do Oceano Atlântico em forma de nuvens vira chuva sobre a mata. Com o calor, essa água evapora e volta a formar gotículas d’água acima das copas das árvores da floresta. Então, essa água é levada por correntes de ar que são desviadas próximo ao estado do Acre por causa das Cordilheiras dos Andes. Esse Rio Voador segue até o Centro e o Sudeste do Brasil onde se transforma, por causa do calor, outra vez em chuva.

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Rios Voadores e sua direção

A título de comparação, o Rio Amazonas, maior rio da Terra que possui 1/5 de toda a água doce proveniente de todos os continentes do mundo e que chega aos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia no Oceano Atlântico. Apesar de não conseguirmos dimensionar a quantidade de água transportada pelo rio de vapor, sabe-se que é maior que a do Rio Amazonas.

Existe uma interação curiosa que ocorre no mundo, chamada de Paradoxo da Sorte. Olhando o mapa abaixo, facilmente percebemos que na Zona Equatorial estão presentes as florestas e que os desertos estão organizados de forma alinhada a 30º de latitude Norte e a 30º de latitude Sul. No Hemisfério Sul temos o deserto do Atacama, Namib e Kalahari e o Grande Deserto da Austrália, enquanto que no Hemisfério Norte temos o Sahara, Sonoran, etc. Há, porém, uma exceção: o quadrilátero que vai de Cuiabá a Buenos Aires e de São Paulo aos Andes, que, apesar de estar na linha de desertos do mundo, não apresenta clima de deserto.

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Ilustração do Paradoxo da Sorte

Porque essa região seria uma exceção? Voltando à analogia com a fisiologia humana, se os rios funcionam como veias nutrindo a terra em toda sua extensão, os Rios Voadores invisíveis funcionam como artérias que trazem de volta ao continente a água que uma vez foi levada ao mar. Dessa forma, a Amazônia seria o coração de todo esse processo e não os pulmões.

O motivo pelo qual essa quantidade enorme de vapor se formar em cima do continente Sul-Americano e não do oceano é que a floresta recebe e emite partículas que funcionam como núcleos de condensação (Saiba mais sobre nuvens clicando aqui), formando gotas pesadas na atmosfera que provocam chuvas torrenciais. E esses núcleos, muitas vezes, vêm de lugares bem distantes dali.

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Tempestades de Areia

“A floresta não é simples consequência do clima, mas o atual equilíbrio do clima é modelado pela floresta.”
Prof. Enéas Salati.

Agora você pode estar se perguntando onde estaria a relação entre os desertos e a floresta. Pois bem, pouco mais de 5,3 mil km e o Oceano Atlântico separam as cidades de Manaus (AM) e Nouakchott, a capital da Mauritânia, no deserto do Saara. Apesar da distância, o deserto do norte da África e a floresta amazônica têm uma relação mais estreita do que o senso comum nos leva a acreditar. Tão inesperado quanto esta ligação é o fato de ser o deserto que beneficia a mata, e não o contrário, sendo responsável pela maior parte das chuvas torrenciais que caem sobre a região, mantendo sua exuberância e biodiversidade, além de enviar toneladas de nutrientes para a sua vegetação. No caso da floresta amazônica, uma parcela desses aerossóis, que funcionam como núcleo de condensação, é proveniente do Saara.

Isso ocorre de fevereiro a maio, pois, nesta época, a chamada Zona de Convergência Intertropical (ITCZ, na sigla em inglês), fica ao sul de Manaus, favorecendo o transporte de massas de ar do hemisfério Norte para a Amazônia Central”, explica Artaxo.

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Entretanto, não são apenas simples grãos de poeira que o Saara manda para a Amazônia.

Em 2015, a Nasa, agência espacial americana, divulgou um estudo segundo o qual todos os anos o deserto envia, junto com a poeira,  22 mil toneladas de fósforo, nutriente encontrado em fertilizantes comerciais e essencial para o crescimento da floresta. Esse montante é quase a mesma quantidade que a mata produz com a decomposição das árvores caídas, que se perde com as chuvas e inundações.

Segundo o levantamento da Nasa, todos os anos, 182 milhões de toneladas de poeira – mais ou menos o equivalente a 690 mil de caminhões de areia – saem do Saara para as Américas do Sul e Central. Desse total, cerca de 28 milhões de toneladas de poeira – ou 105 mil caminhões – caem na Bacia Amazônica, e, junto com elas, o fósforo.

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Devido a sua geolocalização, o lugar é atingido por constantes e gigantescas tempestades, que levantam a areia, que depois é transportada para o outro lado do Oceano Atlântico. A descoberta é parte de uma pesquisa maior para compreender o papel da poeira e dos aerossóis no meio ambiente, no clima local e global e, consequentemente, na formação e no volume de chuva na região da floresta brasileira.

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A maior parte do oxigênio produzido pela Amazônia é consumido por ela própria. Por outro lado, são os Rios Voadores formados na Amazônia que trazem de volta ao continente a água levada ao oceano. Isso nos leva a concluir que a Floresta Amazônica não é o pulmão do mundo e sim, o coração do Planeta Terra. E fica aí uma pergunta: o nosso mundo é ou não é um ser vivo?

Fonte:

Sites:

http://www.ccst.inpe.br

https://www.nasa.gov/content/goddard/nasa-satellite-reveals-how-much-saharan-dust-feeds-amazon-s-plants

Artigos:

“Partículas de Aerossóis na Amazônia: Composição, Papel no Balanço de Radiação, Formação de Nuvem e Ciclos de Nutrientes” de Paulo Artaxo e outros;

“NASA Satellite Reveals How Much Saharan Dust Feeds Amazon’s Plants” de Rob Garner

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