Cotidiano, Efeitos Antropológicos, Energia, Energia Nuclear, Energia renovável, Poluição

Energia Nuclear – Parte III – Um risco necessário?

Nos textos anteriores, analisamos o desastre de Chernobyl do ponto de vista ambiental e vimos os lados positivos da Energia Nuclear. Embora seja considerada por muitos uma forma limpa de energia, quais são seus lados negativos? Devemos apostar nossa produção energética em uma tecnologia tão perigosa?

Nesse texto, abordaremos os 3 principais motivos de alguns cientistas e ambientalistas condenarem essa forma de energia:

1 – Acidentes nucleares

Desde o surgimento da Energia Nuclear e sua adoção pelo setor público de vários países, a partir de 1945, sete grandes acidentes envolvendo reatores nucleares ocorreram em todo o mundo. Embora os vazamentos radioativos tenham sido rapidamente contidos em três desses casos, os efeitos da radiação espalharam-se no ambiente e causaram grandes danos à biodiversidade e à população local, com destaque para Chernobyl e para Fukushima. Esse último, por exemplo, ocorreu em 11 de março de 2011, após um tsunami atingir o local. Embora nenhuma morte tenha sido diretamente vinculada ao acidente, mais de 1600 pessoas morreram durante o processo de evacuação, que retirou 300 mil indivíduos de suas casas. Esse acidente, ainda, lançou enormes quantidades de poluentes radioativos, não só na atmosfera, mas também nos oceanos, com impactos observados ainda hoje.

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Explosão de um dos reatores da Usina de Fukushima – Fotógrafo desconhecido

Não obstante os acidentes nucleares sejam, na maioria das vezes, causados por falhas humanas e desastres naturais, e não pela tecnologia em si, os riscos devem ser levados em conta. Caso, em um futuro próximo, a energia nuclear corresponda a 10% da produção energética mundial, estima-se que um acidente ocorrerá a cada 30 anos. Na hipótese desse número chegar a 30%, há chance desses desastres ambientais e sociais ocorrerem a cada 10 anos. Então, vale a pena arriscar a vida de milhares de pessoas por uma forma de energia teoricamente limpa?

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Pertences pessoais abandonados em Chernobyl após o desaste – Foto de Gerd Ludwig

2 – Uso bélico

A história da Energia Nuclear está intimamente ligada à criação de bombas atômicas, devido a suas similaridades técnicas. Durante a Guerra Fria, devido à crescente ameaça nuclear, foi assinado, em 1968, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que tem como objetivo evitar a disseminação de armas nucleares, bem como limitar o armamento dos cinco países que, na época, eram detedores dessa tecnologia (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China). Em teoria, todos os 189 países signatários, que ratificaram o acordo, se comprometeram a utilizar elementos radioativos apenas na produção energética e a não auxiliar outros Estados na obtenção dessas armas, o que nem sempre foi cumprido.

Em vermelho: Países não signatários do TNP

Nos últimos 40 anos, diversos países adquiriram armas nucleares, com auxilio direto ou indireto de tecnologias voltadas para a energia nuclear. Países como a Índia, Israel, Coreia do Norte e Paquistão desenvolveram mísseis nucleares, aproveitando-se de suas usinas de geração de energia, que serviam como uma forma de esconder os reais propósitos para a compra de compostos como o plutônio e o urânio. Outros países, como a África do Sul, Bielorrússia, Cazaquistão e Ucrânia, compraram armas nucleares de outros países no passado, o que também foi justificado como sendo parte de pesquisas energéticas.

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Teste nuclear realizado pelos Estados Unidos em 1946 nas Ilhas Marshall

A manutenção da energia nuclear pode, portanto, contribuir para a militarização radioativa em larga escala, o que pode por em risco países inteiros. Isso não só ameaça toda a nossa civilização, como também grande parte da vida no planeta, uma vez que uma guerra nuclear global poderia desencadear a extinção de milhares de ecossistemas.

3 – Resíduos radioativos

Esse tópico é, provavelmente, o mais polêmico dos abordados até agora. Se, por um lado, a energia nuclear não libera gases estufa na atmosfera, milhares de litros de água são usados no mundo todo, diariamente, para o resfriamento dos geradores das usinas, o que, por si só, não gera impactos ao ambiente. Entretanto, essa água  fervente é, geralmente, despejada em corpos d’água de forma irresponsável, o que pode aumentar significativamente a temperatura da água local e ameaçar os ecossistemas aquáticos da região.

Leitura termal aponta temperaturas muito elevadas próximo das saídas de Usinas Nucleares – Imagem pela Eurosense

Além disso, a tecnologia nuclear gera resíduos radioativos e extremamente tóxicos, cujo vazamento no ambiente poderia ocasionar impactos inestimáveis. Nos últimos anos, as usinas nucleares vêm estocando seu lixo em depósitos subterrâneos que, posteriormente, é selado com toneladas de concreto. Essa prática é, em teoria, extremamente segura, uma vez que o lixo gerado pela usina ficaria isolado dos ecossistemas e das pessoas a seu redor. No entanto, duas coisas devem ser levadas em consideração.

Primeiramente, a energia nuclear não é renovável. Embora seus resíduos possam, algumas vezes, serem aproveitados para a produção de mais energia, o seu acúmulo é inevitável a longo prazo. Em adição, o plutônio, o urânio e o tório são recursos esgotáveis, o que pode gerar uma crise energética futura.

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Área de mineração de urânio

Em segundo lugar, vale ressaltar que, embora o Tório seja promissor para as tecnologias futuras de reatores nucleares (como comentamos na segunda parte dessa série), essa tecnologia é muito recente e, portanto, ainda mais cara, o que a torna preterida pelas empresas de energia. Dessa forma, por muitos anos, a opção mais utilizada ainda será o urânio, elemento que possui  isótopos, cuja meia vida pode ultrapassar os 100 mil anos, tempo necessário para que a quantidade de átomos radioativos chegue à metade da quantidade inicial. Sendo assim, mesmo com a capacidade de nos proteger dos rejeitos nucleares, devemos colocar em risco populações futuras enterrando um material tão perigoso? Outro fator a ser considerado é que a nossa espécie, assim como todas as outras, não é eterna. Logo, seria ético nós nos beneficiarmos e colocarmos em risco espécies que estarão em nosso planeta muito depois de nossa extinção?

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Podemos concluir que a energia nuclear se revela como um possível aliado ao ser humano na produção energética, mas também como um grande risco. A história nos mostrou que, muitas vezes, boas ideias tiveram terríveis resultados quando empregadas de maneira incorreta. Sendo assim, caso essa forma de produção energética seja utilizada, ela deve ser empregada com extrema responsabilidade. Mais uma vez, percebe-se que nós humanos somos capazes de ajudar ou de prejudicar o nosso planeta. Entretanto, para não prejudicar, basta fazermos as escolhas certas.

 

Referências

Canal do Youtube Kurzgesagt – In a Nutshell

Desvantagens da energia nuclear

Artigo “A Comparative Analysis of Accident Risks in Fossil, Hydro, and Nuclear Energy Chains”, por BURGHERR, Peter et. al.

 

 

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