Água, Cotidiano, Efeitos Antropológicos

Hormônios e afins: o que você pode estar bebendo sem saber?

Já faz algum tempo que cientistas sabem que nem todas as substâncias que chegam em nossa água encanada são componentes naturais. Isso foi detectado através de testes na própria água da torneira e da observação de diversos efeitos peculiares para a saúde dos peixes que residem em nossos mananciais. Muitos peixes foram encontrados com órgãos sexuais masculinos e femininos e foi constatado que a fertilidade de peixes machos diminuiu a tal ponto que algumas espécies de peixes de água doce foram extintas.

A água usada para abastecimento público passa por um processo de tratamento e desinfecção mecânico e químico, que elimina toda a poluição microbiológica (coliformes totais – grupos de bactérias associadas à decomposição da matéria orgânica – e Escherichia coli).

“A água da torneira é controlada várias vezes por dia, para se ter certeza de que está sempre dentro dos padrões de qualidade”, afirma Jorge Briard, diretor de produção de água da Cedae, no Rio.

Em 2017, uma pesquisa encomendada a laboratórios independentes pelas ONGs “60 Milhões de Consumidores” e “Fundação Danielle Mitterrand-France Libertés”, na França, encontrou tanto agrotóxicos como medicamentos na água engarrafada. “Foi uma surpresa, porque mostra que até a água mineral está poluída. Achamos um agrotóxico, a atrazina, usado no cultivo do milho, que está proibido no país há mais de dez anos. Essa substância tem a propriedade de ser muito persistente no meio ambiente. O que significa que, em dez anos, chega ao subsolo”, explica Thomas Laurenceau, da 60 Milhões de Consumidores.

Em 2012, os pesquisadores concluíram que custaria à Grã-Bretanha £ 30 bilhões para livrar sua água de estradiol. O estradiol é um dos principais tipos de estrogênio que as mais de 2,5 milhões de mulheres britânicas tomam todos os dias na pílula anticoncepcional e descarregam em seus banheiros e no futuro suprimento de água. Os pesquisadores descobriram que esse hormônio potente está presente em 80% da água analisada na pesquisa e em 50 locais testados.

Não é de surpreender que nem o governo, nem os fornecedores de água e tampouco os que pagam as contas de água das suas casas estejam interessados ​​nesse esforço em descobrir todos os contaminantes que ela possui. A indústria farmacêutica está ativamente fazendo lobby contra o medo de ter que contribuir de alguma forma com as reais consequências desse tipo de poluição.

Estudos na Europa e nos Estados Unidos, que provavelmente se aplicam igualmente no Brasil, testaram positivamente a água potável para uma lista surpreendente de produtos farmacêuticos, como medicamentos para o coração, antibióticos, antidepressivos, betabloqueadores, anticoagulantes, canais de cálcio, carbamazepina (droga anticonvulsivante), digoxina, medicamentos para colesterol, naproxeno (um anti-inflamatório), analgésicos como paracetamol e codeína e tranquilizantes.

Grandes quantidades de antidepressivos também foram encontradas nos cérebros de alguns peixes de água doce, o que ilustra que nossa busca pela saúde sintética tem um preço alto.

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Hormônios e Farmacêuticos

Nesse estágio, os especialistas se preocuparam mais com os hormônios do que com os medicamentos em geral, pois, embora sejam necessários altos níveis de concentração de medicamentos antes de nossos corpos serem afetados, pequenas quantidades de hormônios podem ter um impacto maior.

No entanto, muitos cientistas alertaram que isso não é necessariamente certo. Na verdade, os hormônios podem afetar o corpo em níveis muito mais baixos do que os farmacêuticos, mas o impacto do consumo de pequenas quantidades de produtos farmacêuticos encontrados em nossa água potável, em um período de décadas, ainda pode ser prejudicial.May4-2.jpg

Se você beber três litros de água da torneira por dia, sendo que cada litro contenha apenas nanogramas de cada droga, é improvável que você consuma a mesma quantidade que uma dose prescrita durante toda a sua vida. Enquanto os pesquisadores e médicos sabem os efeitos de uma dose única, eles ainda não entendem os efeitos da presença permanente das drogas em nossa corrente sanguínea. Além disso, o consumo de medicamentos sintéticos tem aumentado a cada geração, sugerindo que a quantidade de medicamentos em nossa água continuará a crescer.

Sendo assim, é preocupante que os especialistas considerem que o risco seja insignificante, já que isso os impede de realizar estudos para provar que o consumo dessa água é realmente inofensivo. Portanto, no momento não podemos concluir enfaticamente que o consumo crônico de produtos farmacêuticos em nossa água potável é seguro.

Nova ideia

Nossa água pode estar contaminada por diferentes fontes e produtos químicos. Mas como saber se a água que chega até nós já passou por algum tipo de tratamento em Estações de Tratamento de Água ou Esgoto?

A sucralose pode desempenhar um papel na manutenção da contaminação da água, ajudando os pesquisadores e gerentes de recursos hídricos a identificar os pontos de concentração de poluentes, a fim de melhor gerenciá-los.

Esse adoçante vem sendo, cada vez mais, usado como “traçador” – uma substância que pode ajudar a identificar de onde vem a contaminação. Essa capacidade é importante para manter a qualidade da água, tanto em águas superficiais, quanto no abastecimento de água potável.

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O conceito de traçador não é novo: outras substâncias, principalmente a cafeína e alguns dos farmacêuticos, já foram usadas ​​para identificar qual a água que já fez sua caminhada pelo ralo. Então porque a sucralose, encontrada em uma variedade de produtos, está sendo considerada melhor do que todos os outros?  Porque ela é muito estável! Pesquisadores preferem usá-la porque ela não se degrada facilmente, seja no meio ambiente ou em uma estação de tratamento de água.

“O propósito de ter um adoçante artificial é que o corpo não o reconhece como combustível, então você não o usa para energia”, diz Piero Gardinali, professor associado da Universidade Internacional da Flórida. “Temos visto que, se você colocá-lo em uma estação de tratamento de águas residuais, nada acontece porque os microrganismos também não o reconhecem como alimento”.

É praticamente impossível testar cada contaminante existente em águas residuais, mas se os gerentes da qualidade da água detectarem a sucralose em um rio, por exemplo, ela pode ser usada como um sinal de alerta, indicando que alguma quantidade de água residual está presente. A partir dessa descoberta é possível, então, aprofundar a análise para saber se outros contaminantes também estão presentes e se estão colocando em risco a saúde do rio.

No entanto, muito mais importante do que qualquer teste para saber a qualidade da água que consumimos é entender que, para preservarmos a nossa saúde e a natureza, temos que nos precaver e repensar as nossas formas de descarte, bem como o impacto que causamos à nossa volta.

 

 

 

 

Referências

 Estudo realizado pela EPA

Artigo “What to do about the antibiotics and other drugs in our water?” de Elizabeth Grossman 

Artigo “Novel mechanisms for neuroendocrine regulation of aggression” de Kiran K.Soma e outros

Artigo “SYNTHETIC POLYMER CONTAMINATION IN BOTTLED WATER” de Sherri A. Mason, Victoria Welch, Joseph Neratko

https://gizmodo.uol.com.br/quimica-agua-analise/

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